sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A boa vida

A boa vida

Cláudio Moreno

Para Berenice Giannetti, no seu aniversário
Na Grécia antiga, quase todas as esculturas eram feitas em bronze ou em
mármore. Os mestres se dividiam segundo suas preferências, mas era
tamanho o seu talento que, fosse com pedra, fosse com metal, nunca
deixaram de produzir obras-primas de qualidade, habituando o povo grego
ao convívio diário com a arte e a beleza.
Os que esculpiam o mármore, contudo, tinham uma superioridade natural
sobre todos os demais. Para fazer uma estátua, o artista do bronze
construía com sarrafos uma figura humana, com pernas e braços
estilizados, e ia "vestindo" esse esqueleto com argila até produzir uma
versão acabada da obra que imaginara, de onde então sairia o molde
necessário para a fundição definitiva. Seu trabalho, semelhante ao dos
pintores, era acrescentar camada por camada até atingir a forma
pretendida - exatamente o inverso, portanto, do caminho seguido pelo
artista do mármore, que precisava libertar, lasca após lasca, a forma
que estava encerrada dentro da pedra. Essa mesma ideia foi defendida,
muitos séculos depois, por Michelângelo, gênio do Renascimento: há uma
escultura escondida dentro de cada bloco de mármore; para que ela possa
vir à luz, o artista só precisa, com paciência e delicadeza, eliminar
aquilo que está sobrando.
Pois isso que o artista faz com o mármore, dizia Epicuro, nós deveríamos
fazer com nós mesmos. Como essas formas que jazem à espera da mão que as
liberte, vivemos encerrados no duro granito das convenções vazias, dos
desejos irrealizados e das esperanças enganadoras. "O sábio deve
esculpir sua própria estátua." é um preceito que nunca esteve tão atual
quanto agora, neste mundo de puro consumo e aparência. E não se trata de
louvar a renúncia e o sacrifício, mas de valorizar, com alegria, aquilo
que realmente importa, ou, como disse outro sábio, "não é que eu deva me
conformar com pouco, mas sim, se eu não tiver muito, que este pouco me
baste".
Adeptos desse princípio, poetas e filósofos deixaram suas receitas
pessoais para uma vida feliz, todas muito parecidas: uma casa cômoda,
fresca no verão, aquecida no inverno; a saúde, o bom tempo, a chuva
generosa - lá fora; as flores na janela, as frutas da estação, a mesa
farta, com sabores simples e sinceros; a mente em paz, o sono tranquilo
ao lado de quem se ama; o olhar límpido das crianças; alguns amigos, com
alma semelhante à nossa; o sossego, na companhia de muitos livros e de
muita música. Não esperar nada dos poderosos; querer ser o que se é, e
não preferir nada mais; não temer o fim, nem desejar que ele chegue;
aprender, em suma, a saborear o puro prazer de existir - isso é viver.

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