A DESCOBERTA DA FELICIDADE - Roberto Shiniashiky
Quando olho estilo de vida das pessoas no mundo de hoje, percebo que o final do
filme é triste. A maioria luta para realizar metas que as afastam cada
vez mais da sua realização pessoal. Conhecemos muito sobre culinária,
telecomunicações, engenharia, mas quase nada sobre vida. Lutamos muito
para conseguir o abacaxi, gastamos muita energia para descasca-lo e, na
hora de saboreá-lo, estamos tão exaustos que não o aproveitamos.
Muitas pessoas se matam para ter uma casa de campo que só visita para
pagar o caseiro. outros querem garantir o futuro dos seus filhos, mas
nunca brincaram com eles. As pessoas estão cada vez mais pressionadas, a
palavra cooperação é substituída pela palavra competição. é
impressionante o aumento do número de famílias desagregadas, do consumo
de drogas e de pessoas destruindo seus corpos. empresas onde 40% dos
seus gerentes com mais de dez anos de casa são enfartados. As pessoas
estão desperdiçando suas vidas correndo atrás de miragens. Todo mundo
sabe que a felicidade não pode ser sedimentada em bens materiais, mas a
maioria se ilude construindo castelos de areia. Por que isso
acontece? As pessoas aprenderam a valorizar quantidade ao
invés de qualidade. colecionam mulheres, viagens, festas, sem
conseguirem escutar a voz do seu coração. Procuram a felicidade onde ela
não se encontra, buscam a segurança no outro. Tentam achar o amor, a
tranqüilidade e a paz fora de si. Parece mais fácil mas é impossível,
pois o único lugar onde alguém pode encontrar a felicidade é dentro de
si próprio. As pessoas procuram a sua felicidade nos olhos dos outros.
Bens materiais, carros importados, casas, roupas, enfim tudo o que pode
levar à admiração da sociedade. As pessoas hoje vivem se
comprando quem tem mais dinheiro, status, reconhecimento ou sucesso. A
comparação tem como conseqüência o sentimento de inferioridade. sempre
tem alguém com mais dinheiro, prestígio ou poder, que consegue mais
admiração. é inevitável acabar se sentindo por baixo, então vem uma
avalanche de sentimentos ruins. Para não se sentirem
inferiores, as pessoas se sacrificam cada vez mais por algo que muitas
vezes, lhes destrói a alma. Valorizam o que todo mundo valoriza, sem
saber se essas coisas as realizam.Vivem correndo como cachorro atrás do
rabo, sem nunca alcançar a sua meta e, nas vezes em que conseguem
realiza-las, se machucam muito. O que é a felicidade?
Quando era criança, me sentia muito limitado, existiam tantas coisas que
queria fazer e não podia. Quando me sentia frustrado, pensava que no dia
em que entrasse na escola seria muito feliz. Tudo daria certo, passaria
a ser mais respeitado e não teria mais problemas. Quando entrei no
primário, percebi que os problemas continuavam e eu não tinha me tornado
feliz. Comecei a achar que ao entrar no ginásio seria totalmente feliz e
constatei também que não era assim. Mais uma vez adiei, joguei para a
frente a minha expectativa de felicidade total. Imaginei que, quando
entrasse no colegial, então finalmente seria feliz. No
colegial, os problemas continuaram. Ah! Mas, quando eu entrasse na
faculdade de medicina, a felicidade seria inevitável! Triste frustração!
Os problemas continuavam e a angústia aumentou. Idealizei então que,
quando me tornasse médico, seria totalmente feliz. Teria poder, as
pessoas me respeitariam e tudo daria sempre certo para mim. Acabei
percebendo que não era desse jeito que a vida funcionava. Não tinha um
momento definitivo de felicidade. Imaginei que a felicidade não existia.
Descobri que as pessoas diziam que não existe a felicidade, só os
momentos de felicidade, e nós temos que aproveita-Los para poder curtir
da vida o melhor possível. então pense: é isso mesmo! Nos
momentos em que vivia o amor com alguém, ou conseguia uma vitória no
trabalho, eu me sentia bem. Felicidade devia ser algo por aí.
esses momentos me davam a sensação de ser uma pessoa feliz, mas depois
de algum tempo percebia que faltava alguma coisa, não era possível que
fosse só isso - tanta luta para tão pouco prazer. Em 1986
minha vida funcionava muito bem. Tinha conquistado tudo o que havia
imaginado que me tornaria feliz, mas vivia frustrado. Ficava me
perguntando se a vida era só isso. Uma coletânea de filmes, de
momentos... Como sempre fui muito religioso, não podia acreditar que o
Criador houvesse me mandado para essa viagem por tão pouco. Deveria
haver algo mais, e assim decidi ir para o Oriente, conversar com os
mestres e saber o que eles pensavam a respeito da felicidade.
Fui para o Nepal, mais exatamente para Katmandu, a um mosteiro budista,
para descobrir o segredo da felicidade. Chegar em Katmandu é
uma epopéia. Um avião até Londres, outro de Londres para Nova Deli e
mais um até Katmandu. sabia através de um amigo, da existência de um
mestre naquele lugar. Encontrei um hotel e fui procurar o mosteiro. a
pessoa da portaria que me atendeu disse que o mestre iria me receber na
manhã seguinte as nove da manhã. Para ser feliz, descubra a
força que há dentro de você. Naquela noite praticamente não
dormi, fiquei excitado com a possibilidade de ver revelado o segredo da
felicidade. Sai de madrugada do hotel, na esperança de o mestre estar
disponível e poder conversar comigo mais cedo. Fiquei lá esperando até
que ao redor das nove horas, uma mulher falando inglês com sotaque de
francesa entrou na sala. Exultei imaginando que ela me levaria
até o mestre. Ela me acompanhou até uma sala, estendeu uma almofada para
eu me sentar e sentou-se a minha frente. A francesa era uma jovem
morena, muito bonita e eu lhe disse: -Quero falar com o mestre!
Ela me respondeu: -Eu sou o mestre. Naquele momento,
certamente não consegui esconder minha frustração e pensei: puxa vida,
viajei tanto tempo para chegar aqui e conversar com um mestre de verdade
e me mandam uma mestra francesa. Sacanagem! Todo mundo tem um mestre
homem, velhinho, oriental, de barba. Não uma mulher jovem, bonita, e
ainda por cima francesa! Eu falei para ela: -Você não
entendeu direito: quero falar com o mestre. Ela me respondeu:
-Eu sou o mestre. Aí pensei: vou fazer uma pergunta muito
difícil para que ela não saiba a resposta e tenha que me levar até o
mestre de verdade. Fiz uma pergunta, a mais difícil que pude
pensar naquela hora: -O que é budismo? E ela me
respondeu tranqüilamente: -A base do budismo é que todo ser
humano sofre. Pensei comigo mesmo: não é possível, eu saio da
nossa cultura ocidental que diz que o sofrimento é a base da purificação
e da sabedoria, e venho para cá para escutar que a base do budismo é o
sofrimento! Não satisfeito pensei: vou fazer uma pergunta mais
difícil para que ela não saiba a resposta e me leve até o verdadeiro
mestre. -E por que os seres humanos sofrem? -Porque
são ignorantes. Bem se somos ignorantes, deve haver alguma coisa que não
sabemos e que, talvez, seja a resposta que estou procurando.
-E qual é o conhecimento que nos falta? -O conhecimento que
nos falta é a compreensão de que as coisas na nossa vida são dinâmicas e
fluidas. Quando o ser humano está feliz, ele bloqueia a
felicidade, pois quer a eternidade para aquele momento. Então ele fica
rígido, com medo do fim do prazer. Quando está infeliz, pensa que o
sofrimento não vai terminar nunca, mergulha na sombra e assim amplia a
sua dor. A vida é tão dinâmica quanto as ondas do mar. É tão
certa a subida quanto a descida. Cada momento tem sua beleza. No prazer
nos expandimos e na dor evoluímos. Um movimento é complementar ao outro.
saber apreciar a alegria e a dor na sua vida é a base da felicidade.
Você não pode ser feliz somente quando tem prazer, pois perderá o maior
aprendizado da existência. Você deve descobrir um jeito de ser feliz na
experiência dolorosa, porque essa experiência carrega dentro dela
oportunidade de muito aprendizado. Não curta somente o sol,
aproveite também a lua. Não curta somente a calmaria,
aproveite a tempestade. Tudo isso enriquece a vida. Ela não pode ser
vivida somente dentro de uma casa, a vida tem que ser experimentada
dentro do universo. a felicidade é um jeito de viver, é uma postura de
vida, é uma maneira de estar agradecido a tudo, não somente ao sol mas
também à lua, não somente a quem lhe estende a mão, mas também a quem o
abandona, pois certamente nesse abandono existe a possibilidade de
descobrir a força que existe dentro de você. A felicidade não
é o que você tem, mas o que você faz com isso. Por isso existem pessoas
que têm muitos bens materiais, um grande amor, filhos lindos e, apesar
disso, se sentem angustiados e depressivas. Apaixonado por
aquela mulher a minha frente somente consegui balbuciar antes de sair:
-Obrigado mestra! (Por pouco meu preconceito a respeito do sexo e do
mestre me afasta dessa lição de vida). a felicidade não é o
que acontece em sua vida, mas como você elabora esse episódio. a
diferença entre a sabedoria e o desespero, o sábio e o desesperado, é
que o sábio sabe aproveitar as suas dificuldades para evoluir e o
desesperado sente-se vítima dos seus problemas. A felicidade é
uma experiência que está diretamente ligada à sabedoria e, certamente,
para criarmos um planeta mais feliz, precisamos muito mais de sábio do
que de gênios. As pessoas procuram sucessos em bens materiais,
mas na verdade o único sucesso que vale a pena é ser feliz! (Este texto
foi extraído do livro "Sucesso é Ser Feliz" - ed.Gente) [Roberto
Shiniashiky é consultor organizacional, terapeuta de análise
transacional e conferencista nacional e internacional. Autor de: "Amar
Pode Dar Certo" e "A Carícia Essencial", entre outros.]
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