segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A fábula dos gatos

A Fábula dos Gatos
Um fazendeiro plantava milho e o armazenava no paiol.
Com o milho, o fazendeiro alimentava as galinhas, os cavalos, as
vacas, ovelhas e todos os outros bichos da fazenda.
Os bichos da fazenda, por sua vez, garantiam ao fazendeiro o seu
sustento.
Os ratos insistiam em roubar o milho armazenado no paiol.
Quem cuidava do paiol era um cachorro. Um cachorro preto e grande.
Quem cuidava do paiol antes do cachorro cuidar do paiol era o pai do
cachorro e, antes do pai do cachorro assumir a sua função, quem
cuidava do paiol era o avô do cachorro.
E sempre foi assim, a família do cachorro cuidando do paiol, e não
deixando que os ratos comessem todo o milho.
Era um trabalho duro: os ratos não acabavam nunca e, chovesse ou
fizesse sol lá estavam para roubar uma espiga aqui, outra ali. O
cachorro não tinha folga e para fazer frente à rapidez dos ratos,
mantinha os músculos em forma e os reflexos ligeiros.
Em compensação, o cachorro adorava o seu trabalho. Afinal, se não
fosse por ele, os ratos já teriam há muito tempo comido todo o milho e
acabado com a comida dos demais bichos. Em reconhecimento ao seu
trabalho, a bicharada elegeu o cachorro o presidente da fazenda.
E claro que o mando do presidente não era perfeito, discussões
surgiam, a insatisfação aparecia. Mas, de uma coisa todos podiam ter
certeza: quem trabalhasse, ganhava o seu quinhão.
Um dia, apareceu na fazenda um gato. Um gato magro e bigodudo. Tão
bigodudo que, tivessem barba os gatos, esse poderia ser um gato
barbudo.
O cachorro, como todo cachorro que se preza, ciente da sua função e do
valor do seu trabalho, latiu para o gato, quis que o gato fosse
embora. O cachorro sentia que aquele bicho de ar debochado, malicioso,
sem muito gosto para o trabalho, não poderia ser grande coisa. O
fazendeiro não ouviu o que o cachorro quis dizer, e o gato foi
ficando, foi ficando, foi ficando...
O gato, que não trabalhava (que, aliás, nunca tinha trabalhado), tinha
bastante tempo para conversar com os outros bichos da fazenda. E
chegava de mansinho junto da bicharada, magrinho, fraquinho, e
começava a miar. Os outros bichos, muito bonzinhos, paravam para
escutar o que o gato tinha para
dizer:
- Miau, miau, ai, ai. O que vai ser de mim. Não existe lugar nesta
fazenda para um bichinho como eu, tão injustiçado, tão fraquinho!
Veja, não posso trabalhar, o sistema é tão injusto! Só por que não
nasci forte como o senhor Seu Cavalo, só por que não posso dar leite
como Dona Vaca, não posso trabalhar! O Seu Cachorro, o dono do poder,
não avalia essas contingências históricas e me mantém mergulhado nessa
penúria...
- Mas, Seu Gato, e aquele trabalho que lhe ofereceram na casa, como
guardião da dispensa?
- Não aceitei, Seu Cavalo. Na verdade, prefiro continuar minha luta
por condições mais dignas! No fim, depois de tanta ladainha, os bichos
começaram a acreditar o gato. A sentir pena do gato. E o gato, que se
dizia injustiçado, que se fazia passar por vítima, que era explorado
pelo sistema e, principalmente, pelo cachorro que lhe negava tais
milhos, conquistou a simpatia dos bichos. E fez com que os bichos
acreditassem que ele, tão sofrido, tão maltratado, iria garantir a
todos melhores condições de vida.
Tanto miou, tanto fez, que um dia os bichos revoltados com a situação
de absoluta miserabilidade do gato e com a injustiça social reinante
na fazenda resolveram destituir o cachorro. E de nada adiantou o
cachorro insistir que cuidar do paiol não era para qualquer um. Que
ele havia treinado muito para assumir essa função. Que os ratos não
eram mole, e não dariam trégua assim tão fácil.
Afastaram o cachorro e, por unanimidade, colocaram no seu lugar o
gato. Os bichos sabiam que o gato dantes nunca havia trabalhado. Que
não tinha sequer se preparado para assumir a função mais importante na
fazenda. Mas acreditaram que o gato, por ter sofrido mais do que
ninguém com a política do cachorro, traria ordem e moralidade à
administração do paiol.
No começo, tudo foi festa: no lombo de Seu Cavalo, viajava o gato para
outros sítios e fazendas, falando sobre a sua conquista. Contava aos
outros bichos que agora a fazenda vivia uma nova realidade. Tanta era
a festa, tanta era a euforia, tanta era a esperança, que os bichos não
perceberam que mais e mais gatos não paravam de chegar. Gatos de todos
os jeitos. Gatos vindos de todas as partes. Gatos, que em comum com o
gato-presidente, nunca tinham trabalhado na vida. E gato-presidente,
que curiosamente chamava todos os demais gatos de companheiros,
precisava arranjar uma função para essa gataiada.
Então, um dia, quando Seu Cavalo apareceu para puxar o arado, percebeu
que, no seu lugar, um bando de gatos ocupava os arreios. E Dona Vaca,
que produzia o melhor leite da região, foi expulsa da estrebaria pelos
companheiros do gato-presidente. E as galinhas, no galinheiro não
moravam
mais: nos poleiros, gatos e mais gatos fingiam estar botando ovos.
E o gato-presidente remunerava prodigamente todos os seus companheiros.
Afinal, um trabalho em prol da coletividade desempenhavam...
 Como era de se esperar, o gato-presidente (que nunca havia trabalhado
na
vida) não conseguia cuidar do paiol. Os ratos logo perceberam a
situação:
atacavam, como nunca haviam feito, o milho da fazenda.
Tão complicada ficou a situação que o gato-presidente precisou
conversar com o seu conselheiro. Um gato de óculos, que miava de um
jeito esquisito, puxando demais os "erres":
- Miarr, presidente. A coisa tá feia. Em nome da governabilidade da
fazenda, temos que nos aliar aos ratos!
- Companheiro, os fins justificam os meios! Devemos passar aos demais
 bichos uma imagem de ordem e tranqüilidade! E os gatos fizeram um
pacto com os
ratos: os ratos fingiam que não roubavam o milho, os gatos fingiam que
caçavam os ratos.
Dessa forma, a bicharada acreditava que os ratos estavam sendo
combatidos, e os ratos, que por baixo do pano recebiam suas
espiguinhas, mantinham os gatos no poder.
Entretanto, o milho foi acabando. E os bichos, que haviam acreditado
na conversa do gato-presidente, com fome, começaram a ficar
insatisfeitos. E foram todos reclamar com o gato-presidente.
Tarde demais. O paiol já estava infestado de ratos, ratos por toda
parte, ratos em tudo. Ratos e gatos, gordos, barbudos, aproveitando
tranqüilamente o que havia sobrado de milho no paiol enquanto o resto
da bicharada, os bichos que sabiam trabalhar, que davam duro, ficaram
sem comida. Sem comida, e traídos que se sentiram, o maior tesouro de
todos: a esperança de dias melhores.

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