segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A felicidade dura pouco

A FELICIDADE DURA POUCO:
Danuza Leão

HÁ MUITOS, muitos anos, havia uma música de Zé Rodrix que nos emocionava. Os primeiros versos diziam "eu quero uma casa no campo, onde eu possa compor
muitos rocks rurais"; e continuava dizendo coisas lindas, como "eu quero a esperança de óculos e um filho de cuca legal, eu quero plantar e colher com as mãos a
pimenta e o sal". Era com isso que sonhávamos, mesmo sem saber, ou era o que gostaríamos de querer; belos tempos.
Os anos passaram, e os sonhos, no lugar de se ampliarem, encolheram.
O que é que se quer hoje em dia? Menos, acredite, pois querer um celular novo que faz coisas que até Deus duvida é querer pouco da vida. Meu maior sonho é bem modesto.
Nada me daria mais felicidade do que um celular que não fizesse nada, além de receber e fazer ligações. Os gênios dessa indústria ainda não perceberam
que existe um imenso nicho a ser explorado: o das pessoas que, apesar de conseguirem sobreviver no mundo da tecnologia, têm uma alma simples.
As duas mais dramáticas novidades trazidas pelos celular foram as odiosas maquininhas fotográficas e a impossibilidade de uma conversa a dois. Quando
duas pessoas saem para jantar, é inevitável: um deles põe o celular às vezes dois em cima da mesa. O outro só tem uma solução: engolir, mesmo sem água, um tranquilizante
tarja preta.
No meio de uma conversa palpitante, o telefone toca, e a pessoa faz um gesto de "é só um minuto". Não é, claro. Vira um grande bate-papo, e não existe
solidão maior do que estar ao lado de alguém que te larga abandona, a bem dizer para conversar com outra pessoa. No meio de um deserto, inteiramente sós, estamos
acompanhados por nossos pensamentos. Com alguém ao lado falando num celular, lendo os e-mails ou checando as mensagens, não se pode nem ao menos pensar. É a solidão
total, pois nem se está só nem se está acompanhado. Tão trágico quanto, é estar falando com alguém que tem um telefone com duas linhas; no meio do maior papo, ele
diz "aguenta aí que vou atender a outra linha" e frequentemente volta e diz "te ligo já" e aí você não pode usar seu próprio telefone, já que ele vai ligar já (e
às vezes não liga). Não dá.
Raros são os que atendem e dizem "estou com uma amiga, depois te ligo" nem precisavam atender, já que o número de quem chama aparece no visor, e as
pessoas têm todos eles de cor na cabeça, como eu não sei.
Eu juro que tentei, já troquei de celular três vezes, mas desisti. Recebia contas que não entendia, entrei, de idiota, num "plano", e quase enlouqueci
quando quis sair. Hoje tenho um que praticamente não uso, mas é pré-pago, e só umas quatro pessoas conhecem; ponho 20 reais de crédito, se não usar não vou à falência,
mas pelo menos não recebo aquelas contas falando de torpedos e SMS, coisas que prefiro nem saber que existem. Ah, e meus telefones fixos são com fio.
Do carro já me livrei: há cinco anos não procuro vaga, não faço vistoria, não pago IPVA, nem seguro, e sou louca por um táxi. Até ontem me considerava
uma mulher feliz, mas sempre soube que a felicidade dura pouco: hoje ganhei um iPod. Uma quase tragédia, eu diria.
PS - Lula não resistiu e foi fazer campanha no Chile. Michelle Bachelet teve que largar o que estava fazendo para recebê-lo no aeroporto, e como se fosse
pouco, ainda ouvir um discurso. Nele, Lula disse essa pérola: "graças a Deus, não houve vítimas entre os brasileiros". A presidente, com a expressão devastada pelos
800 mortos perdidos no terremoto, só fez olhar para o chão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário