terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A fita vermelha

>A fita vermelha
>
> Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as
> meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo
> quanto
> tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior
> desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem
> dado.
> Mais alegrias do que tristezas.
>
> Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas
> para
> vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da
> vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que
> dinheiro algum consegue comprar.
>
> Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos
> «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que
> continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus
> pacientes cavalos.
>
> A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antes, em
> cada
> aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta
> meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.
>
> O quê? Português, francês. Hoje sei, acima de tudo, o amor da vida.
>
> Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um
> professor
> tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os
> alunos.
>
> Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda.
> O
> sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música
> estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos
> automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos
> cavalos que passavam de vez em quando.
>
> Porque, mais do que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar
> e
> a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria
> ou disciplina - ou antes, a ter a consciência de que a aprendia.
>
> Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de
> duzentas)
> que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas
> representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era
> desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a
> conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só
> é
> precisa a leitura.
>
> Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas
> confiando
> em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me
> ensinavam quanto lhes devia.
>
> Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens,
> que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim,
> um
> erro semelhante para vós mesmos.
>
> Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos
> carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em
> quando. Uma Primavera só no ar adivinhada.
>
> Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora. Morena, de grandes
> olhos
> cheios de doçura. Talvez triste. A Aurora estava doente. Num hospital da
> cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital. Olhei o retratinho dela na
> caderneta.
>
> Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia.
> Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado
> saudades.
>
> - Vou vê-la no próximo domingo - anunciei às companheiras. E tencionava ir
> vê-la mesmo no próximo domingo.
>
> Mas o próximo domingo foi cheio de Sol. Sol do próprio astro, quente,
> luminoso. Igual e diferente, ao mesmo tempo, do sol-sorriso das meninas.
>
> E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do Sol, fui passear. Ver mar?
> Campos verdes? Flores?
>
> Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar.
>
> Começava a Primavera.
>
> Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo
> domingo.
>
> Hoje sei que o amor dos outros se não adia.
>
> Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro.
>
> Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me,
> esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam
> transmitido.
>
> Veio a família: mãe, pai, irmãos, amigos, as colegas.
>
> - Estou à espera da professora.
>
> No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua
> doçura, a sua esperança.
>
> A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na
> almofada, talvez incómoda, do hospital. Sabemos todos já, amigos, que há
> vida e morte. Também isso temos de aprender.
>
> Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase
> transparentes
> da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo
> nascerem.
>
> Lembrem-se como de um ovo de pássaro podem sair asas que voem tão alto em
> dias de Primavera. E morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo.
> E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa.
>
> E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de
> nós,
> nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia.
>
> Às vezes até precisamos uns dos outros para dizermos que estamos felizes,
> contentes. Só para isso. Mesmo felizes precisamos dos outros.
>
> Aurora ensinou-me para sempre esta verdade.
>
> As lágrimas que por ela chorei já não lhe deram aquela visita do próximo
> domingo.
>
> Nem a mim a alegria de a encontrar sorrindo, cheia de doçura, com uma fita
> vermelha a prender os cabelos escuros. Vermelha de sangue, como a vida. O
> Sol. Flores vermelhas.
>
> Aurora era o seu nome. E a sua vida uma manhã apenas que, na minha
> distracção ou egoísmo, não tive tempo de olhar. Uma manhã com uma fita
> vermelha. Que lágrima nenhuma pode reflectir.
>
> Matilde Rosa Araújo
>
> O Sol e o Menino dos Pés Frios

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