A fraternidade é frágil
Abrão Slavutzky*
À medida que os sonhos de uma sociedade muito mais justa diminuíram, a
esquecida palavra fraternidade foi ressurgindo. Os mais sonhadores podem
não gostar dessa palavra, os individualistas podem ironizá-la, mas a
vida se esvazia sem esses elos entre a casa e o mundo. A fraternidade
não envolve só os laços familiares, mas principalmente os de amizade, os
irmãos da vida. São esses enlaces fraternos que criam os suportes para
se enfrentarem as dores das perdas, ajudando assim a suportar as
tristezas, bem como festejar as conquistas, amando a vida como ela é. De
fato, nunca se sabe com certeza como a vida é. Ademais, ela não
pergunta, as coisas acontecem, e não é por acaso que tanto tem sido
escrito sobre os relacionamentos e a arte de viver. Arte essa que passa
pela capacidade de ter alguns amigos indispensáveis para conversar e
assim mudar a forma de olhar o cotidiano.
A fraternidade é frágil, como já se sabe desde os tempos bíblicos, pois
o primeiro crime ocorreu entre irmãos, quando Caim matou Abel por
inveja. As rivalidades fraternas seguem na Bíblia com Jacó e Esaú, com
os irmãos de José, que o venderam como escravo para o Egito; muitos anos
após, quando se tornou ministro do faraó, teve a chance de se vingar da
crueldade dos irmãos e não o fez, introduzindo a fraternidade na Bíblia.
O vínculo fraterno é paradoxal, oscila como duplo entre a ameaça à
identidade imaginária da criança e ao mesmo tempo é mais uma de suas
identificações. Esse vínculo também é a base de apoio da solidariedade,
que estimula as ações coletivas e alivia o desamparo. Já Cícero definia
o humano como frágil e perecível e, por isso, enfatizou como os amigos
são necessários para darem conselhos e porque sem amigos não há alegria.
Apesar dos desencontros que ocorrem nos percursos da existência, é
preciso fazer o elogio da amizade. Quem já viveu a experiência de ser
ajudado ou já foi capaz de ações de desprendimento sabe toda a
importância do outro. Há poucos dias, li na internet como um grupo de
amigas fez um almoço para uma delas, que havia tido uma perda
importante. Alguns esportistas não esquecem os colegas do passado e
sabem ser bondosos quando um ou outro precisa. Quando ocorrem atos
fraternos, a humanidade se enriquece, são iniciativas que diminuem o
ceticismo geral. Atos que deveriam ser mais divulgados na mídia para que
todos soubessem, todos os dias, não só das corrupções e crueldades, mas
da quantidade de gestos nobres que acontecem. Se há nos jornais páginas
esportivas, políticas e policiais, poderia haver uma da solidariedade.
Já é mais do que hora de recuperar o quanto de humanidade tenhamos
perdido, e pode ajudar a leitura do poema Aos que Vão Nascer, do
marxista Bertold Brecht: “Ah e nós, que queríamos preparar o chão para o
amor, não podemos nós mesmos ser amigos”. Uma frase sobre o futuro da
humanidade, a possibilidade da utopia, a importância da humildade, bem
como ter na amizade a primeira esperança.
*Psicanalista
Porto Alegre, 06 de maio de 2009
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