quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A anta triste

A anta triste

Edson Vidigal*

Ela vaga pela aí notívaga, atravessando noites, mas nunca está
satisfeita. A anta, diz a lenda, é uma daquelas criaturas montadas por
Deus com o que sobrou dos outros bichos.

Daí nunca estar satisfeita com o que lhe acontece.

Anda, anda, anda, quando vencendo a preguiça consegue andar, mas de nada
adianta. Fora dos latifúndios de suas ancestralidades às vezes engana,
outras vezes não engana.

O olhar vago fitando o nada não lhe dissimula a tristeza. Daí querer
passar sempre a impressão de alegria. Mas ser resultado do que sobrou na
linha de montagem dos outros bichos, isso, só isso, por si só, lhe faz
triste, muito triste.

A anta triste não pressentiu, talvez, que na mata atlântica, por onde
vagueia por noites, já é um tipo raro, em fase de extinção.

As espécies todas devem ser preservadas porque é dessa contradição,
entre as que são do bem e as que fazem o mal, que se realiza o
equilíbrio do eco-sistema.

Afinal, sempre a pergunta, como seria o mundo se, contrapondo-se ao bem,
não existisse o mal? O bem, para se impor, precisa do mal, porque só
assim é possível raiarem as diferenças.

Acho que foi Nietzsche quem andou falando que não se vive o presente
porque este exercício de viver tem a lhe impulsionar sempre a história,
os registros do passado.

Talvez seja por isso que alguns, quando se lembram da anta triste,
esbocem algum saudosismo, um misto de pena, coitadinha, é um animal em
fase de extinção. E ela, porque é irracional, é claro, ela nem, nem...

Ora, estou falando de anta, animal mamífero, e ponha mamífero nisso.
Quer saber se uma anta é jovem ou se já está coroa?

A anta jovem tem o pêlo curto e coberto de manchas brancas, lembrando
uma zebra, mas só de longe se parece com uma zebra. Quanta frustração.

Anda com o pescoço meio pendendo para a esquerda, mas nem sabe, é claro,
o que vem a ser isso.

Já a anta quando começa a ficar velha perde esse charme de zebra e
quando pende o pescoço para o lado esquerdo fica é ridícula.

A anta tem a expressão corporal de um suíno, os pés iguais aos do
rinoceronte, cascos de boi e o focinho não lembra uma pequena tromba de
elefante?

Deve ser muito frustrante não lhe ser possível, enquanto anta, roer
unhas. Quem é maluco de confiar àqueles dentes que nem de égua os seus
dedos, as suas unhas?

Fiquei sabendo, pela enciclopédia dos bichos, que para comer a anta
prefere os frutos, folhas, brotos, pequenos ramos, grama, plantas
aquáticas, cascas de árvores, organismos aquáticos, e que gostam de
pastar sobre plantações de cana, melão, cacau, arroz e milho.

Quando amanhece, ela se esconde e dorme. Mesmo estando com uma ou outra
companhia, a anta é solitária. Adora se espalhar na lama para depois
querer se limpar na água limpa dos outros.

A anta se comunica com o mundo emitindo sons como guincho, o estalido ou
o bufo. É uma grande bufona, dir-se-ia.

Quando quer fugir de onde está para o caminho de volta à sua
ancestralidade até galopa derrubando arvoredos, podendo escalar lugares
íngremes, mas se é dia, se esconde na água que encontrar.

E lá vai ela, outra vez, lá vai ela, mal se aguentando nas pernas, de
volta aos seus latifúndios ancestrais. Mas, o que fazer se é nessas
penumbras que ela se sente a tal, mais confiante e a mais segura?

O maior predador da anta? Só pode ser o voto livre do eleitor livre e
consciente.

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