quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Barauna e eu

A baraúna e eu


Tem quase dez anos que repartimos a mesma paisagem.
A vizinha mais perto de mim, a mais importante que nós temos, não ocupa
grandes cargos no Recife, nem manda no Governo de Pernambuco, muito
menos no mundo dos poderosos da região.
A personagem mais admirável e fascinante das nossas cercanias é uma
baraúna.
Esta semana, fui vê-la de perto. Saudou-me com uma leve, quase
imperceptível inclinação do seu tronco rijo, para retornar imediatamente
à solenidade esgalhada do silêncio em comunhão com o azul que acabava de
acordar no céu.
Tem lá os seus caprichos a nossa vizinha. No verão, finge que morre,
para reverdecer logo às primeiras chuvas desta época do ano. Recobre-se
de uma folhagem exuberante, como se atendendo ao verso do poeta que
anuncia a aproximação do vento, todo ancho, pronto a convidá-la outra
vez para dançar.
Já me fiz de íntimo da baraúna, mas ela nunca me deu liberdade para me
explicar suas mudanças de humor.
Por que será que muda de roupa em cena? Na estiagem se desnuda, na
estação das águas, reassume os pudores e torna a exibir o charme da
fronde revolta ao vento do entardecer na montanha.
Aprendi a amá-la tal como ela é: às vezes seca, despojada, esquálida em
sua viuvez agreste, ora luxuriante e sestrosa, a se envolver com a
passarada alcoviteira que lhe repassa em versos melodiosos os mexericos
da mata nem sempre virgem, onde a natureza faz amor à vista de todos, na
maior naturalidade.
As pessoas também podiam ser assim. Nos tempos do infortúnio, largar
todas as vestes que ocultam as verdades do ser, as aparências que
falseiam o conteúdo que nem sempre aparece. A nudez pura dos inocentes é
a grande resposta.
Afinal, o amor, a verdade, a saudade, assim como o sol do verão, quando
muito abrasam o coração. Quem precisa se vestir para amar, olhando nos
olhos de verdade, sentindo vontade de ver de novo?
Alguém duvida de que as baraúnas também amam?
A minha morre de amor por mim.
Por isso, arranca de si a folhagem inútil, se desnuda, finge-se de morta
para me despertar cuidados enamorados. Só para me dar vontade de vê-la
de novo. Fui eu que a ensinei a sentir saudade.
Depois, quando começam a cair as primeiras chuvas agrestinas, mando-lhe
recados pelos passarinhos, até que ela se enche de versos livres que
sempre sobram da nudez dos inocentes, todos eles folhados de cristais
verdes, mas também de bemóis.
Ela me faz festa como nunca e me convida para dançar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário