sábado, 19 de fevereiro de 2011

A dor

A DOR


10 horas da noite. Volto para casa após um dia cansativo. Minha família me
espera como todos os dias. Da janela do ônibus, meu olhar vagueia, perdido
no espaço sem horizonte, sem uma imagem, sem limite. Minha mente não fixa
nenhuma idéia, como uma pena levada pelo vento, sem destino ou parada,
simplesmente solta.

De repente, casualmente, fixo meu olhar desprevenido em algo que me fez
tremer de pavor, tristeza, remorso, uma mistura de sentimentos que não sei
definir
 Talvez angústia? Não, realmente, não sei. Só uma coisa tenho certeza: Eu
vi a face da dor!!! E ela doía e doeu em mim ver a sua dor.

Sua testa franzida formava vincos fundos. Seus olhos marejados com lágrimas
que insistiam em não cair. Sua boca se movia sem ruídos, sem palavras,
expressando como que um pedido de socorro, uma súplica. Seu rosto contraído
era o próprio grito da alma torturada. E ela doía e doeu em mim ver a sua
dor.

No sinal fechado, a dor vagava por entre os carros mostrando sua face para
todos, estendendo sua mão a pedir, não apenas um trocado para comprar um
pão, não, mas um olhar de misericórdia, talvez. Alguém que lhe desse um
sorriso, se é que alguém poderia diante da sua expressão fazer sequer uma
menção de sorrir. Preferiam não ter que passar por aquela situação, e com
seus dedos enrigecidos, numa frieza mais triste ainda, talvez usada para se
proteger, negavam qualquer compartilhamento, qualquer troca, para que a dor
pudesse quem sabe se sentir um pouco humana. Quem sabe? E ela continuava
doendo, e doía em mim ver a sua dor.

E durante a eternidade que dura os minutos entre o fechar e o abrir de um
sinal de trânsito, pude presenciar o desespero da dor, que, diante de tantos
nãos, se encosta em um muro frio, úmido e chora.

Eu vi a dor chorar. Um choro que não se descreve, por falta de palavras que
possam fazê-lo. O choro da alma torturada. O choro do abandono. E o mais
triste de tudo, a dor era uma criança. Uma criança igual aquela que, em
casa, me esperava dormindo entre os seus brinquedos, agasalhada, linda,
protegida.

O sinal abriu e eu segui com a imagem da dor na minha retina, ou melhor, na
minha alma. Ao chegar em casa, corri e beijei a criança que dormindo
tranqüila me esperava e falei: felicidade, a dor vaga lá fora.

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