quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A arte de engolir sapos

A arte de engolir sapos
Rubem Alves

O Adão, meu amigo, professor de biologia, já encantado, amava os sapos.
Dedicou sua vida a estudá-los. Estudava e admirava. Era capaz de
identificá-los não só por sua aparência física como também pelo seu
canto. Acho que o Adão achava os sapos bonitos. E é certo que eles têm
uma beleza que lhes é peculiar. O filósofo Ludwig Feuerbach diria que
para os sapos não existe nada mais belo que o sapo e, se entre eles
houvesse teólogos, haveriam de dizer que Deus é um sapo. Cada forma de
vida é o Bem Supremo para si mesma.
Eu mesmo, sem ter a sensibilidade do Adão, escrevi um livro para
crianças em que um dos heróis é o sapo Gregório. Mas desejo confessar
que não acho os sapos bonitos. Bonita eu acho a sua cantoria durante a
noite, a despeito da sua falta de imaginação e monotonia. Mas o que ela
perde em riqueza estética é plenamente compensado pelo seu poder
hipnótico, o que é bom para fazer dormir.
Mas o fato é que nós, humanos, não consideramos os sapos como animais
com que gostaríamos de conviver. Ter um cãozinho, um gato ou um coelho
como bichinho de estimação, tudo bem. Mas se o menino quisesse ter um
sapo como bichinho de estimação, os pais tratariam de levá-lo logo a um
psicólogo para saber o que havia de errado com  ele. Sapo é bicho de
pesadelo.
Quem sugere isso são as Escrituras Sagradas. Está relatado, no capítulo
oitavo do livro de Êxodo que Deus, para dobrar a obstinação do faraó
egípcio que não queria  deixar que o povo de Israel se fosse, enviou-lhe
uma série de pragas de horrores, uma delas sendo a dos sapos. Diz o
texto que a praga era de rãs, mas não faz muita  diferença. "Eis que
castigarei com rãs todos os teus territórios, o rio produzirá rãs em
abundância, que subirão e entrarão em tua casa, no teu quarto de dormir,
e sobre o teu leito, e nas casas dos teus oficiais, e sobre o teu povo,
e nos teus fornos e nas tuas amassadeiras." Já imaginaram o horror? A
gente entra debaixo  das cobertas e sente o frio das rãs que lá estão.
Morde o pão e dentro dele está uma rã assada.
Nas estórias infantis é a mesma coisa. A bruxa poderia ter transformado
o príncipe numa girafa, num tatu ou num gato. Escolheu transformá-lo no
mais nojento, um  sapo. E há aquela outra estória em que o sapo queria
dormir na cama com a princesinha. Tão horrorizada ficou de ter de dormir
com um sapo que ela, para evitar os  beijos e seus desenvolvimentos
inevitáveis, pegou-o pela perna e o jogou contra a parede. Esse ato teve
efeito mágico pois que, ao cair no chão, o sapo transformou-se  em
príncipe. Já aconselhei pessoas a lançar contra a parede seus sapos e
sapas conjugais, para ver se o contra-feitiço funciona também para os
humanos. Parece que  não.
O horror do sapo aparece também numa sugestiva expressão popular: "ter
de engolir sapo". Por que não "ter de engolir gato", "ter de engolir
borboleta", "ter de engolir  tico-tico"? Porque mais nojento que sapo
não existe.
Essa expressão traz o sapo para o campo das atividades alimentares.
Engolir é comer. O ato de comer é presidido pelo paladar. O paladar é
uma função discriminatória.  Ele separa o saboroso do não saboroso. O
saboroso é para ser engolido com prazer. O não saboroso, o corpo se
recusa a comer. Cospe. "Ter de engolir sapo": ser forçado  a colocar
dentro do corpo aquilo que é nojento, repulsivo, viscoso, frio, mole.
Não há forma de engolir sapo com prazer. Engolir um sapo é ser estuprado
pela boca. Há um ditado inglês que diz: "If you are going to be raped,
and there is nothing  you can do about it, relax and enjoy it": se você
vai ser estuprado e você não pode fazer nada para impedi-lo, relaxe e
trate de gozar o mais que puder. Esse ditado  sugere a possibilidade de
se sentir prazer em ser estuprado. Pode até ser. A psicanálise me
ensinou a aceitar a possibilidade dos mais estranhos prazeres perversos.
Mas não há relaxamento que faça do ato de engolir um sapo uma
experiência prazerosa.
Por que engolir um sapo?
Há pessoas que engolem sapos por medo. Bem que seria possível evitar a
repulsiva refeição: o sapo é um sapinho. Mas elas preferem engolir o
sapo a enfrentá-lo. Não  têm coragem de pegá-lo e jogá-lo contra a
parede. Pessoas que fizeram do ato de engolir sapos um hábito acabam por
ficar parecidas com eles: andam aos pulos, sempre  rente ao chão e
coaxam monotonamente.
Mas há situações em que é inevitável engolir o sapo. Eu mesmo já engoli
muitos sapos e disto não me envergonho. O meu desejo, com esta crônica,
é dar uma contribuição  ao saber psicanalítico, que até agora fez
silêncio sobre o assunto. Muitos dos sintomas neuróticos que afligem as
pessoas resultam de sapos engolidos e não digeridos.
Tudo começa com um encontro: à minha frente um sapo enorme, ameaçador,
com boca grande. A prudência me diz que é melhor engolir o sapo a ser
engolido por ele. É  melhor ter um sapo dentro do estômago (sapos
engolidos nunca vão além do estômago) do que estar no estômago do sapo.
Aí, impotente e sem opções, deixo que ele entre na minha boca, aquela
massa mole nojenta. É muito ruim. O estômago protesta, ameaça vomitar.
Explico-lhe as razões.  Ele cessa os seus protestos, resignado ao
inevitável. Não consigo mastigar o sapo. Seria muito pior. Engulo. Ele
escorrega e cai no estômago.
Alimentos não digeríveis são eliminados pelo aparelho digestivo de duas
formas: ou são expelidos pelo vômito ou são expelidos pela diarréia. Os
sapos são uma exceção.  Não são digeridos mas não são nem expelidos
pelas vias superiores e nem pelas vias inferiores. Os sapos se alojam no
estômago. Transformam-no em morada. Ficam lá  dentro. Por vezes
hibernam. Mas logo acordam e começam a mexer.
Ninguém engole sapo de livre vontade. Engole porque não tem outro
jeito.. Tem sempre alguém que nos obriga a engolir o sapo, à força. A
pessoa que nos obriga a engolir  o sapo, a gente nunca mais esquece. Diz
a Adélia que "aquilo que a memória amou fica eterno". Aí eu acrescento
algo que aprendi no Grande Sertão. Conversa de jagunços  matadores. Diz
um: "Mato mas nunca fico com raiva". Retruca o outro, espantado: "Mas
como?" Explica o primeiro: "Quem fica com raiva leva o outro para a
cama." É  isso. A gente leva, para a cama, a pessoa que nos obrigou a
engolir o sapo. A raiva também eterniza as pessoas. Não adianta falar em
perdão. A gente fica esperando  o dia em que ela também terá de engolir
um sapo. Ou como dizia uma propaganda antiga de loteria, a gente reza:
"O seu dia chegará...."

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