quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A arte de calar

A arte de calar

É sinal de inteligência e     sabedoria falar pouco, falar bem e não
falar mal de ninguém.
Contudo, calar-se é ainda mais importante, quando calar-se é dizer
tudo.
Há quem se cale por não ter realmente nada para nos dizer, mas há
também quem se cale por omissão, quando seria um dever falar, escrever,
gritar, colocar     a boca no trombone, como se dizia antigamente.
Calar-se na hora certa e pelos motivos certos é uma verdadeira arte
cujas regras um pequeno livro do Abade Dinouart quer nos transmitir.
Autor francês do     século XVIII, suas admoestações para que façamos
silêncio ainda hoje são     pertinentes.
Sutileza não lhe falta. Ao mesmo tempo que recomenda o silêncio,
lembra que há silêncios falsos, aqueles que simulam uma sabedoria que,
de fato,     inexiste. Nem sempre calar-se significa profundidade de
pensamentos. Pelo contrário, é     camada de verniz que recobre um vazio
sepulcral.
Mas há ainda outros silêncios, e alguns deles diabólicos. Há o
silêncio manipulador, o silêncio torturante, o silêncio chantagista, o
silêncio     rancoroso, o silêncio conivente, o silêncio da zombaria, o
silêncio imbecil, o     silêncio do desprezo. Há pessoas que matam com
seu silêncio. Há silêncios que esmagam     a justiça e a bondade, na
calada da noite.
Por isso o silêncio rico de significado é ainda mais apreciável e
luminoso.
Falo do silêncio que prenuncia novas palavras.
Falo do silêncio que é solidariedade na dor.
Falo do silêncio que soluciona cisões.
Falo do silêncio que pergunta.
Falo do silêncio que perdoa.
Falo do silêncio que ama.
O silêncio mais puro é aquele que guarda a confidência. Este
silêncio jamais é excessivo. Não se deve apregoar aos quatro ventos o
que foi murmurado     na intimidade da amizade e do amor.
O silêncio mais sábio é aquele que fazemos diante dos impertinentes,
intolerantes e desbocados. É o silêncio do Cristo inocente diante dos
acusadores, o     silêncio dos espaços infinitos diante da quase
infinita capacidade nossa de falar ou     escrever sem razão.
Calar da maneira certa é deixar que uma voz mais profunda seja ouvida.
A voz severa, a voz serena, a voz suave e firme da verdade.
O verdadeiro silêncio diz a verdade que não se pode calar.
O verdadeiro silêncio nunca será cedo demais.
Quero ouvir o silêncio que tudo explica.
             "É pela educação, mais do que pela instrução,
           que se transformará a Humanidade."

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