domingo, 13 de fevereiro de 2011

A caridade

A Caridade

Terminara, finalmente, o insigne poeta o seu árduo trabalho: grandioso
poema sobre as maravilhas de Deus na ordem do cosmos.

E agora, numa roda de amigos e admiradores, declamava o mais belo
capítulo da obra prima do seu engenho.

Foi um assombro total!

De tamanha beleza eram as idéias, tão profundos os conceitos, tão
cintilantes as frases, tão suaves as cadências dos períodos, que os
ouvintes ficaram como que extáticos de enlevo.

E quando o poeta, no auge do entusiasmo, declamava a mais grandiosa
página do poema, ouviu-se bater à porta da casa.

Mais se avolumou a voz do inspirado poeta, mais vibrante se tornou o seu
estro, para abafar o ruído do inoportuno visitante.

Persistem, porém, na porta, os golpes indiscretos. Interrompe então o
cantor das grandezas de Deus a faiscante cadeia de idéias e,
contrariado, com um arranco violento, abre a porta.

"Por gentileza, senhor, a sua roupa suja" diz uma vozinha tímida, coando
dos lábios pálidos duma menina magríssima. É a filha da pobre lavadeira.

"Agora não posso, menina! Venha amanhã!"

"Mas a mamãe vai ficar sem serviço, e sem pão, somos tão pobres. Por
favor senhor, a sua roupa suja"

"Não posso, já disse!"

Com estrondo infernal se fecha a porta na cara da pálida menina. E,
tornando a subir ao estrado, retoma o trovador o fio do poema. Por entre
tempestades de aplausos termina a declaração da grande apoteose que
elaborou pela maior glória de Deus.

Felicitações, abraços, sorrisos, elogios e luminosas perspectivas.

Altas horas da noite.......

Surge no seio das trevas o rosto pálido duma menina paupérrima. Corre
pelo quarto olhares sonâmbulos, apanha da mesa os originais do poema,
folha por folha e as rasga em mil pedaços. E jogando-as ao cesto de
papéis murmura: "Roupa suja, senhor". E desaparece.

O poeta acorda, os originais lá estão, intatos. E põe-se a pensar, a
pensar, a pensar. É verdade que escrevi este poema pela maior glória de
Deus? Se é verdade, porque não cantei, ontem à noite, o mais belo de
todos os poemas do mundo, o poema da Caridade? Por que não entreguei à
pobrezinha a minha roupa suja? Por que preferi à caridade a minha
vaidade?

Levantou-se e resolveu, logo de manhã, entregar à filha da lavadeira a
roupa suja que ela pedira, e lavou com as lágrimas do arrependimento a
"roupa suja" que tinha dentro da alma. E o seu coração cantou em
silêncio o mais lindo poema de humanidade.

O divino poema de Jesus de Nazaré!!

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