sábado, 19 de fevereiro de 2011

A distância crônica

A DISTÂNCIA, CRÔNICA:
Paula Pimenta

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado,
podendo ir com ele ao cinema em plena quarta-feira, mas pra quem conta cada dia para o próximo encontro, o tempo custa a passar. Chega o Natal, mas não chega o
fim-de-semana. E quando finalmente ele chega, aí sim, o tempo voa. E lá vamos nós, voltar para a contagem regressiva até a próxima vez.
Quem namora (não só à distância) sabe que sair com os amigos quando se tem namorado não é nem de longe tão divertido quanto sair com os amigos na condição de solteira.
Primeiro, porque os amigos se dividem em dois grupos: solteiros e casais. Os solteiros geralmente saem para paquerar. E os casais não querem saber de vela (a não
ser que sejam outros casais). Ou seja: quem namora e não tem o namorado por perto é um pária da sociedade, um excluído. Eu, por exemplo, não gosto de segurar vela.
E nem acho graça (e nem acho lícito) paquerar outras pessoas. Acabo então, na maioria das vezes, indo só ao cinema, onde não têm apenas casais e a paquera não é
obrigatória, mas isso acaba agravando a saudade, porque cinema é o lugar onde namorado mais faz falta, seja pra dividir a pipoca, os beijos ou as opiniões depois
que o filme terminar.
Só quem tem que namorar pelo telefone sabe que essa história de ter menos brigas por causa da distância é pura ilusão de quem nunca passou por essa situação. A
quilometragem que separa um casal é diretamente proporcional à quantidade de ciúme. Você, toda bem intencionada, confia no seu namorado, acredita que ele está lá
tomando um choppinho com os amigos e sentindo tanto a sua falta quando você está dele. Até que chega a sua amiga e te diz que ele, com certeza, está na gandaia,
que é pra você abrir o olho. Vem o cara que te paquera no barzinho (naquela tentativa que você fez de sair com a amiga solteira) e te pergunta – quando você diz
pra ele cair fora porque é comprometida – se você sabe o que o seu namorado está fazendo naquele minuto. Chega o seu amigo que já passou por essa situação e manda
você fazer marcação cerrada, porque homem é tudo igual e quando bebe esquece do estado civil. É difícil, depois desse bombardeio, a confiança ficar intacta, ainda
mais se você telefona pra provar que todo mundo está enganado e o celular dele cai na caixa postal... Acabamos gastando o precioso tempo dos encontros discutindo
a relação enquanto poderíamos estar repondo o tempo perdido.
Quem passa a maioria dos dias longe do namorado sabe como é chata a condição de se ter que ir embora bem na melhor parte. Porque é assim: depois de separados por
um período, não é a mesma coisa se encontrar como se vocês tivessem se visto na noite anterior. O reconhecimento demanda um tempo. Você estranha a pessoa um pouco.
Vários pensamentos vêm à cabeça: “Que blusa nova é essa?”, “Da última vez ele não estava de cavanhaque.”, “Quem são esses amigos que eu não conheço?”, “Que gíria
diferente é essa que ele aprendeu a usar?” Coisinhas bobas, que quem convive no dia-a-dia não tem que passar, pois sabe de quem ele pegou a gíria, acompanhou o
crescimento do cavanhaque, ajudou ele a comprar a blusa, viu ele fazer a nova amizade. Você demora um tempinho, mas acaba se acostumando e até gostando das novidades.
Então, bem nesse momento, você olha o calendário e vê que já vai embora amanhã. No próximo encontro outras novidades terão tomado lugar dessas que você já conhece
e lá vai você passar por outra adaptação.
Só quem namora à distância sabe o quanto é difícil uma despedida. Ele pode viajar por apenas três dias. Se vocês estivessem na mesma cidade, poderia ser até que
nem se encontrassem nesse período, mas pelo menos vocês tinham a certeza de estar ali, a poucos minutos de distância. Mas basta que ele feche a mala que o seu coração
se fecha também... é que os momentos passados juntos são tão valiosos que dá medo se separar. Medo do avião, do ônibus, da estrada, do destino.
Quem passa a maioria dos dias sem o namorado perto sabe como é fria a cama na segunda-feira posterior a um fim de semana passado juntos. Dá uma tristeza sem fim
olhar para o lado e deparar com aquele espaço imenso que ele deixou. Só resta abraçar o bicho de pelúcia que ele te deu e sonhar com o próximo encontro, torcendo
para que ele venha logo e dure mais.
Só quem namora assim, de longe, sabe que mesmo com todas essas dificuldades, o amor compensa. Porque quando o namorado chega, o mundo fica mais colorido. Os poucos
momentos são tão intensos que se estocam na memória, nos abastecendo até a próxima dose. E só quem namora desse jeito sabe o quanto é bom ter a esperança de que
um dia aquela distância encurtará de vez e os encontros não terão prazo, necessidade e nem vontade de acabar...

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