segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

À espera dos pais

À Espera dos Pais

A dama da alta sociedade costumava desfilar, em sua carruagem de luxo,
pelas ruas de São Francisco, sob olhares de admiração e inveja.



Um dia, os jornais publicaram o falecimento de uma tia e ela,
obedecendo às convenções sociais, teve que permanecer no lar por uma
semana.



Indignada por ter que ficar sete dias dentro do enorme palácio, buscou
o marido, então Governador do Estado, e esse a fez lembrar-se de que
poderia passar os dias brincando com o filho.



Ela gostou da idéia. Adentrou a ala esquerda do palácio, que tinha
sido liberada para o pequeno príncipe, que vivia rodeado por
profissionais de diversas nacionalidades, a fim de lhe ensinarem
idiomas e costumes de outros povos.



Quando o pequeno Leland avistou a mãe, exultou de felicidade e lhe
perguntou por que ela estava ali, naquele dia e hora não habituais.



Ela lhe contou o motivo e ele, feliz, lhe perguntou quantas tias ainda restavam.



Leland estava ao piano tocando uma balada que aprendera com sua babá francesa.



A mãe, impressionada, ficou ouvindo, por alguns instantes, aquela
balada que lhe pareceu um tanto melancólica.



Pediu ao filho que cantasse, ele cantou. Falou-lhe para que a
traduzisse e ele a traduziu.



Era a história de um menino que era levado pela sua mãe todos os dias
até à praia, de onde ficavam olhando o pai desaparecer na linha do
horizonte, em seu barco pesqueiro.



Todos os dias a cena se repetia, até que um dia, o barco do pai não retornou.



A mãe conduziu o filho novamente à praia e lhe pediu que ficasse
esperando, pois ela iria buscar o marido.



Adentrou no mar e o filho ficou esperando na praia, pelo pai e pela
mãe, que jamais retornaram.



A balada comoveu a grande dama. Falou ao filho que era muito triste.
Ele respondeu que cantava porque se identificava com o menino da
praia.



A mãe não entendeu em que consistia a semelhança e retrucou ao filho:



Você tem tudo. Não lhe falta nada. Tem mãe e pai e é herdeiro de um
dos homens mais importantes deste Estado.



Leland respondeu com melancolia: Mas o papai adentrou há muitos anos
no mar dos negócios e nunca o posso ver.



Você o seguiu e eu fiquei aqui à espera de um retorno que nunca
acontece. Como você pode perceber, minha história é muito semelhante à
do menino solitário da praia.



Daquele dia em diante, a dama passou a conviver mais com o filho de
onze anos a quem não conhecia e, por esse motivo, aprendeu a amá-lo.



A convivência estreita com a mãe trouxe a Leland um brilho novo. Por
algum tempo a vida lhes permitiu desfrutar da alegria do afeto mútuo,
das experiências vividas, um em companhia do outro.



Fizeram uma longa viagem de navio e Leland adoeceu. A mãe fez tudo o
que podia para lhe salvar a vida, mas foi tudo em vão.



O navio retornou e Leland não pode mais contemplar a mãe com os olhos físicos.



Todavia, naquele breve tempo de convívio, o menino ensinou à mãe outros valores.



Ela construiu orfanatos e outras obras de assistência para a comunidade carente.



Leland não herdou a fortuna dos pais, mas a fortuna rende frutos até
hoje, junto à sociedade daquele Estado. Dentre elas, a Universidade
Stanford.



* * *



Não há motivo que justifique o abandono dos filhos por parte dos pais.



Não há filhos que aceitem, de boa vontade e em sã consciência, trocar
o afeto dos pais por qualquer outro tesouro.



Pensemos nisso!

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