quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A ÁGUA DO MUNDO de Leo Jaime

      de Leo Jaime.

Vou correndo, como se isso me fizesse escapar dos pingos da chuva que se
inicia. Menos tempo na chuva, pode ser ilusório, mas tenho a impressão de
que ficarei menos molhado, de que chegarei menos ensopado. Com o canto do
olho observo o senhor que com a mangueira termina de limpar a calçada,
mesmo sabendo que a chuva há de modificar todo o cenário nos próximos
instantes. Ou vai trazer de volta toda a sujeira que ele está tirando ou
vai lavar outra vez o que ele acabou de lavar.
A água que cai do céu cai purinha, purinha, é o que penso enquanto corro
dela. A água que cai do céu. Lembro-me do livro da Camille Paglia em que
ela afirmava, ou pelo menos foi o que me recordo de ter dali subtraído,
que o homem havia optado por viver em grupo por temor aos fenômenos
naturais: chuvas, clima, terremotos etc. Foi preciso se unir contra as
forças da natureza. As forças amorais na natureza. Quando passa um furacão
levando tudo, bons ou os maus, estão todos ameaçados. Quando chove muito e
tudo começa a inundar, anjos e demônios poderão estar, em breve,
igualmente submersos. Quando a água falta, senhores e escravos morrem da
mesma sede. Há forças mais poderosas que a maldade humana.
Os destinos turísticos são, em sua maioria, lugares interessantes por
causa da água. Praias, lagos, rios, cachoeiras: somos naturalmente
atraídos pela água. A simples vista para o mar ou rio já torna um ambiente
mais interessante. Parece óbvio o que digo mas se levarmos em conta que
grande parte do planeta é tomado por água isso passa a ser, sim, digno de
nota: vivemos em meio a tanta água e ainda somos tão fascinados por ela!
Nosso organismo é também, em sua maior porção, água. Somos água, viemos da
água, para a água voltaremos e, enquanto tivermos como aproveitar a vida,
queremos fazê-lo perto de alguma fonte de água límpida, na beira de um rio
ou mar. Navegando, que seja. Queremos água.
Vivemos, porém, sob o alerta de que a água pode acabar. É preciso
economizar. Parece absurdo pois a água é absolutamente indestrutível! Se
você toca fogo ela vira fumaça e depois volta  a ser água, se congela ela
derrete e volta a ser água, seja lá o que se faça com ela, a água volta a
ser água depois de um tempo, pura e cristalina. E na mesma quantidade!
Pois é. Mas pode voltar salgada. Sabe lá o que é morrer de sede em frente
ao mar? O prejuízo maior que a água pode sofrer é a poluição. Uma vez
poluída a água pode demorar muitos anos para voltar ao seu estado natural,
potável, como os pingos da chuva lá do início.
Volto ao início e ao senhor que tentava varrer uma folha de árvore,
pequenina, da porta de seu prédio, segundos antes da chuva começar.
Quantos litros de água pura ele desperdiçava naquela tarefa imbecil? Não
seria mais fácil varrer a folhinha ou pegá-la com a mão? Aquela água
correria para o bueiro e se juntaria ao esgoto cheio de substâncias
químicas e de lá iria parar sabe-se lá onde, mas, poluída, demoraria um
tempo enorme para voltar para o reservatório d'água da cidade. Este tempo
é que pode ser o suficiente para uma cidade entrar em caos por não ter o
que beber. A água não vai "acabar" nunca, mas talvez, um dia,  não
possamos usufruir dela onde e como gostaríamos. Talvez as grandes
desgraças naturais não nos metam tanto medo porque o que nos vai derrotar
mesmo sejam as folhinhas nas calçadas. Aguadas de estupidez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário