quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Águia é Cega

A Águia Cega

Um velho Belanca cortava os céus. Em baixo, o rio seco estava salpicado de ilhotas.

De repente a pressão do óleo começou a baixar e o piloto resolveu pousar no primeiro lugar que
aparecesse. E este lugar surgiu sob a forma de uma ilha de tamanho considerável, que,
imponentemente e sobrepujando todas as outras, era o lugar ideal para um pouso.

As rodas do Balanca tocaram suavemente o solo arenoso, num pouso perfeito. A pane foi sanada
com a colocação do óleo que, previdentemente, existia no avião para situações de tal natureza.

Antes de reiniciar a viagem, o piloto examinou aquele lugar. A ilha, como as demaisque a cercavam,
só aparecia na época da seca e, em situação normal, era parte do leito do Araguaia.

Lugar belíssimo, de uma areia alva e fina, cercado por águas barrentas e coberto com pedrinhas
multicores, parecia um oásis perdido no deserto verde da mata ribeirinha.

O piloto decolou, levando consigo dez pedrinhas, escolhidas a dedo, que teriam finalidade dupla:
seriam recordação daquele lugar fabulosos e excelente presente para sua filhinha.

Assim a ilha ficou para trás, ela pertencia ao passado; agora só uma coisa realmente interessava, a
pressão do óleo, que deveria permanecer normal até a próxima etapa da rota.

O tempo passou...

Um tenente continuava vivendo a sua vida e uma garota loura juntara à sua coleção de bonecas um
punhado de pedrinhas.

A ilha fora esquecida!

Certo dia, um joalheiro famoso, ao visitar o oficial, teve a sua atenção despertada para as pedrinhas,
que no momento serviam de peças num jogo de três-marias.

- Tenente, onde o senhor encontrou estes cascalhos?

Essa pergunta saiu dos lábios do visitante numa forma de súplica e intensa curiosidade. O tenente
explicou então a sua rápida permanência na ilha.

- Pois saiba, concluiu o joalheiro, que essas pedras são pedras preciosas; e, separando uma menor,
preta, brilhante e luzidia, disse:

- Isto é satélite de diamante; sua filha brinca de três-marias com uma autêntica fortuna.

Não é preciso dizer o que se passou com aquele oficial, nem afirmar que, a partir de então, ele foi o
mais constante piloto daquela rota.

O destino colocou-lhe nas mãos uma fortuna imensa; durante uma fração de tempo ele teve aos seus
pés milhares e milhares de pedras preciosas e foi um autêntico Ali Babána caverna dos quarenta
ladrões.

Talvez tenha sido o homem mais rico da terra naquele quarto de hora em que permaneceu na ilha!

Mas o seu garimpo, aquele tesouro imenso, e a sua ilha existiam agora apenas na imaginação.

O Araguaia sepultara para sempre aquele lugar e nunca mais foi possível localizá-lo.

Todos nós, como aquele piloto, encontraremos, se já não encontramos, uma ilha no vôo de nossas
vidas.

Ela conterá também um rico garimpo, o garimpo do amor, e talvez seja mais preciosa do que a ilha
encontrada no Araguaia.

Como aquele piloto, pousaremos despreocupados, conheceremos a ilha, que poderá ter o nome doce
de uma mulher ou poderá denominar-se juventude, ou talvez seja mesmo uma ilha perdida nas praias
do nordeste.

Mas, se a ilusão e a ânsia por sensações novas nos fizerem decolar, sem ao menos procurarmos
guardar o local onde estivemos ou deixar nele uma placa com os dizeres:

"esta ilha é minha" então levaremos somente algumas pedras preciosas, sob a forma de recordações
de um beijo, de um carinho, de um mar verde e do vento pagando na areia dos nomes escritos num
coração.

E quando um joalheiro famoso, conhecido como o senhor Tempo, nos disser que perdemos um
garimpo, voltaremos atrás, como aquele oficial, mas será tarde, porque, como o Araguaia, o passado
terá sepultado a nossa ilha.

Ficarão apenas, como lembranças, algumas pedras: a saudade de um nome, de um carinho, de um
dia...

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